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O texto desafia-nos Um texto olha-nos. Teria dito Sartre. E o mitólogo Guibert Durant, não há muito tempo, em Lisboa, adiantava: um texto olha-nos, há um "cruzamento de olhares", e o que nos olha no texto, completa ele: é o núcleo. É "esse núcleo que nos olha e que hoje diríamos que nos interroga, interrogação digamos, da literatura profana pelo seu além mítico". Um texto olha-nos e por que não? _ um texto desafia-nos. "Uma obra não se esgota num só sentido, como não se realiza apenas num tema" Cada um de nós, leitor, se transmuda em escritor, em escritor singular. Que é e não é. No fundo, cada um de nós não escreve o que já foi dito, ainda que não tenha sido dito foi supostamente dito. Suponhamos que foi dito, mas não foi explicado. Já que procurar analisar um texto, procurar interpreta-lo é tentar entendê-lo e explicá-lo. Não há como medir o valor de uma obra literária. Posto que qualquer tentativa de fazê-lo, mesmo com alguma convicção, transportaria uma carga subjetiva e estaria fora de todas as hipóteses demonstrativas, em rigor. Tanto empírico venha ser a experiência literária, tanto para quem escreve quanto para quem as lê. "Oferto-me a nossa África" Quando o sujeito do enunciado se identifica com o Poeta, podemos dizer que em tal enunciado se resume uma vida e uma poética. A vida de Agostinho Neto e a poética de Agostinho Neto. Quase toda sua poesia fora escrita na Europa. Essa vivência longe de sua pátria, avivou-lhe os sentimentos e acentuou-lhe a dedicação fraternal e criativa pelos seus irmãos, ao contrário do que aconteceu com alguns outros. Constrói um diálogo permanente entre si e os "negros de todo o mundo" ... "Sou um mistério Vivo as mil mortes Que todos os dias morro fatalmente" ...comandado pela "voz do sangue", impulsionado pela força interior e rebelde e amorosa, que vem da raça, do sangue, da cultura. Deduza, não induza. Do ponto de vista da linguagem, há os que seguem a norma canônica e os que rompem com ela. A obra de Agostinho Neto é paradigmaticamente do primeiro grupo: a sua linguagem organiza-se a partir, quase exclusivamente, do português padrão. Deste clã lingüístico fazem parte Antonio Jacinto, Mário António, Arnaldo Santos, António Cardoso, Costa Andrade, Manuel Rui, Manuel Pacavira, David Mestre, Rui Duarte de Carvalho, Raul David, Maria Eugênia Neto, Pepetela, João de Freitas. A esse grupo de angolanos poderia somar-se, por exemplo, o nome do moçambicano Luiz Bernardo Honwana. Eles não sentiram a necessidade de expressiva, criativa de enveredar pela sistemática transgressão ou ruptura lingüística, como aconteceu com Luandino e seus discípulos (pensamos para facilitação, apenas nos ficcionistas: Boaventura Cardoso, Jofre Rocha, Jorge Macedo, e mais um ou outro). Mas a origem desta nova estética lingüística é tão remota quanto as origens da própria literatura angolana. Já em Espontaneidade da minha Alma (1850) de José da Silva Maia Ferreira, se encontram aí os indícios. Indícios que vão alargar-se e desenvolver-se em Nga Muturi (1882) de Alfredo Troni; encontram eco nos poemas de Eduardo Neves, Cordeiro da Mata e mais alguns outros do século XIX; ganha uma certa extensão em "Segredo da Morta" (1935) de Assis Júnior, encontra nos excritores de Mensagem (1951-1952) e depois em Cultura (II), 1957-1961, interessantes e acuradas experiências e, aí pelos fins dos anos 50, salta aos olhos a curta narrativa "Aiué!" de Cochat Osório, embora se deva ter em conta que ela não é rigorosamente do mesmo teor das experiências anteriores, sobretudo daquelas em que o grupo de Mensagens andou envolvido. Enquanto as práticas que têm como referência Luandino Vieira, são, do ponto de vista lingüístico e criatividade artística, abertos à expressão dinâmica do real, a de cochat Osório prefigura-se-nos uma forma extática de representar o real, um modo como que naturalista de representar o universo relatado. Mas seja como for, a experiência constitui-se num momento decisivo da tal sugestiva curva que tem comoponto de partida o ano de 1850 e de chegada, Vidas novas de Luandino Vieira que, por intertextualidade activa ou passiva, geral ou restrictiva, teria recebido contribuições desencadeadoras, incluindo as que vieram do exterior como é o caso do brasileiro Guimarães Rosa. Nada nasce do nada. Guimarães Rosa ter-se-ia inspirado em toda a corte do modernismo brasileiro e, obviamente, no Mário de Andrade do romance Macunaíma. O reconhecimento universal da contribuição de Luandino Vieira vem do facto de ele ter sabido, como que de surpresa, incorporar as experiências parcelares de muitos anos e ultrapassá-Ias dialecticamente. Contribuições quantitativas, enquanto as de Luandino Vieira, no instante da ruptura, dão o salto linguístico qualitativo. Isto não impede que vários ficcionistas africanos de língua portuguesa venham provando que é possível a realização de uma narrativa de características genuinamente africanas sem o recurso ao processo da subversão da norma. E' a lição a tirar e _ de que, como em tanta coisa, na comarca literária, a cada um cabe fazer a opção linguística que entender na construção da sua obra literária, seja ficção, seja poesia, seja drama. Todos os caminhos vão dar a Roma, e nunca a expressão teria sido mais adequada. O necessário e que não nos percamos por atalhos, que quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos. Tudo isto a propósito da obsessão conteudística africana no texto de Agostinho Neto, através de um instrumento linguístico europeu (português) na fabricação desse texto retintamente angolano (africano). Penitenciando-nos por em anos anteriores podermos ter tomado posição diferente, hoje em nosso entender é tão lícito e, mais, é tão revolucionário, se se prefere romper com a tradição linguística literária e construir uma outra autónoma, como instalar-se dialecticamente no domínio linguístico do colonizador. E isto é dito por outras palavras - e bem dito! - por David Mestre e Amável Femandes: "Agostinho Neto foi o nome que subscreveu [...] a maioria dos primeiros textos que para sempre fixaram a impossibilidade de anexação da literatura angolana pela literatura portuguesa na sua própria língua"(in lavra & oficina, no. 46-51. Luanda,julho-dezembro, 1982, p.9). Mas atenção às mudanças traz idas pela dinâmica do tempo. Hoje, em plena independência nacional, há a acrescentar que a língua portuguesa não é dos portugueses. A língua portuguesa é de todos e estão a afeiçoar às suas próprias e irreversíveis necessidades de expressão e comunicação: em Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, no Brasil, em Angola. Daí que nos pareça contraditório dizer-se que é do colonizador a língua que pelos africanos foi reapropiada, reassumida. O problema perdeu a sua carga ideológica, política Reassumida não quer dizer simplesmente adoptada. Quando uma comunidade assume uma língua que, na origem, não era a sua, implica que essa língua experimenta, nesse espaço, uma prática imprevista no interior dessa sociedade nova, caracterizada pela mudança. Na vontade e na necessidade própria dos seus utentes, caber-lhe-á conviver a funcionar numa permanente readaptação orgânica a essa nova situação. Daí que a língua portuguesa esteja a ser reformulada não só pelo povo de Angola como pelos povos dos outros países africanos e, em cada um desses países, de per si, vem adquirindo uma fisionomia própria. Logo, e fatalmente, a língua portuguesa transformando-se no campo operatório da oralidade vai também, por via disso mesmo, ser sujeita a tratamento específico por parte dos criadores-literários. Uns levarão o processo até às ultimas consequências, outros farão incursões de maior ou menor monta. Por nossa parte, hoje, em plena época de independência nacional, e respeitando quanto vier a ser praticado pelos escritores angolanos (ou dos outros africanos) - os únicos a quem cabe autoridade criadora - o problema perde toda a carga ideológica, política para ter agora um peso essencialmente antropológico, criativo, nacional. A nosso ver isto é determinante. Mas, então, pode reincidir-se na pergunta. Não haverá uma maior legitimidade num processo do que noutro? Não, responderíamos. Depende da sensibilidade de cada ficcionista ou poeta; do seu gosto literário; e sobretudo - sobretudo! - da sua apetência, da sua disponibilidade interna, da sua necessidade criadora. E tanto um pode alcançar os seus objectivos criadores através de uma linguagem de transgressão ou de plena ruptura como através de uma linguagem colada à norma, ainda que, por circunstâncias contextuais linguísticas, tenha de utilizar falas e expressões novas. Como sempre, em casos destes, e para rematarmos, tudo depende, afinal, da capacidade criativa de cada um. Essencialmente! Voz do sangue Texto cujo enunciado pressupõe a existência de um interlocutor longínquo: "A tua mão poeta/atravessou os oceanos até mim" e "encontrou-me sentado na ilha-África/levantada no coração de Lisboa". Faz crer que se reporta a uma situação real, a um caso concreto. Mas o nome do poeta-interlocutor não é dito, o verso do poeta é omitido. Porém, africano e, pelo menos "A tua mão poeta [...] tenho-a na minha mão/ e através dela! oferto-me à nossa África" (sublinhado nosso). Os elementos informativos, as/ referências directas, como que receoso de fornecer os dados do jogo todo, a furtarem-se a uma descodificação imediata. E nessa parte que diz na outra parte que não diz, o texto a contender conosco, não a expulsar-nos do Templo da Arte, mas a estimular-nos à participação. O texto a desafiar-nos e nós a desafiarmos o texto. Olhamos em algumas expressões apelativas, acentos repetitivos, redundâncias, predominância de certas palavras, preferência pela anáfora, a insistência em palavras que sugerem o acto da agressão: "batuque guerreiro"/, "terrenos adubados pelo sangue" e, como remate, o encontro e a solidariedade na revelada confissão da comunhão racial e cultural; vamo-nos interrogando, aceitando o desafio, o texto dando-se e furtando-se numa espécie de agarra-e-foge. Mas a nossa memória está em África, e o próprio texto à força de repetir cinco vezes o sintagma "a tua mão" e outros como "a tua voz" ou expressões como os "terrenos adubados", e "pela tua voz milhões de vozes fraternidade/amor", de repente banha-nos com a sua luz e ávida a nossa interrogação dirigida ao texto total africano de Agostinho Neto, obtém uma como que etérea ressonância. Atingimos o núcleo. E acontece a desocultação. O poema em muitos aspectos é uma replica a outro ou a outros. Outros poetas, irmãos de luta comum, então em Luanda, enquanto Agostinho Neto, no momento em que escreve o poema ou suposto que o escreve nesse momento, encontra-se "[...] sentado na ilha-África/levantada no coração de Lisboa". E bem assim a rede de evocações, a teia das relações culturais, literárias, ideológicas, se alarga porque a díade Agostinho/utros poetas angolanos vem juntar-se um outro companheiro de jornada, este de São Tome e Príncipe, Francisco José Tenreiro, a tantos títulos o primeiro da África negra de língua portuguesa, e assim a "voz do sangue" unindo vários poetas na expressão maior do Universo negro. O grande rio A corrente de intertextualidade vem assim na sua aventura pelo tempo e pelo espaço. Bastaria pensar que Tenreiro foi ao cubano Guillen, aos americanos Langston Hughes, a Countes Cullen, aos cabo-verdianos Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, e estes por sua vez (e também o próprio Tenreiro) aos brasileiros Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge de Lima; sempre um fenómeno de causalidade e um presente a fundamentar um futuro. É nesta interligação que os criadores literários, as literaturas se entumescem e dão novos frutos. De facto, à medida que os poemas se vão sucedendo em A renúncia impossível sentimos, tal como acontece em Sagrada esperança como se corporizam, se intercepcionam numa totalidade coerente, três grandes espaços temporais: o passado, o presente e o futuro. Antigamente era o eu-proscrito Antigamente era a pele escura-noite do mundo Antigamente era o canto rindo lamentos Antigamente era o espírito simples e bom Outrora tudo era tristeza Antigamente era tudo sonho de criança "Antigamente" ou "no antigamente" entrou, com certa frequência, nos textos angolanos, em regra simbolizando uma espécie de paraíso perdido. Luandino Vieira, da geração posterior a Agostinho Neto, intitulou um dos seus livros No antigamente na vida. Aqui, em Agostinho Neto, não é exactamente o paraíso perdido. Antigamente, outrora, o passado é um espaço complexo, simultaneamente maldito, proscrito, não excluindo o da bondade, até mesmo o do angelismo. Mais uma vez o sujeito enunciador não é o poeta Agostinho Neto, mas sim uma entidade colectiva, o negro de todo o mundo, que "soltou um grito" "que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo/Harlem/Pekim/Barcelona/Paris/ Nas florestas escondidas do Novo Mundo". Isto, no passado. No presente"[...] a pele/o espírito canto choro brilham como gumes prateados/ crescem/belos e irresistíveis/como o mais belo sol do mais belo dia da Vida". Também aqui pressentimos os ecos alusivos à poesia de Tenreiro. E também aqui a insinuação de ressonâncias da poesia de José Craveirinha, que talvez desconhecesse estes poemas de Agostinho Neto, e até de Amílcar Cabra!. Veja-se que o contrário também pode ser verdadeiro. A significação do presente no espaço verbal deste poema, "Antigamente era" é o da reabilitação, diríamos até o da assunção em oposição ao espaço da "tristeza" e da maldição "no antigamente". No presente há a reabilitação, a beleza irresistível da "pele", do "espírito", do "canto", do "choro" que "o mais belo sol do mais belo dia da Vida" fazem resplandecer. A ansiosa esperança E o futuro? Como é que o futuro se espraia no enunciado e como é que é vertido pela enunciação neste macrotexto? Basta irmos a um poema, datado de 1949, intitulado "Sinto na minha voz..." e recortar este fragmento, que é o fecho: E no coração tenho a certeza De que o amanhã não será só ilusão e como que complementarmente a estrofe do poema seguinte, "Novo rumo": Somos o ritmo construtivo do Novo na alta noite dos caminhos sem nome Ou os dois últimos versos do "Poema para todos". Aí está o mundo construamos Estamos assim no reino do claramente definido. Construamos agora no presente para havermos o futuro. A renúncia impossível abre com o poema "Ópio", e concretamente com este verso: Casaram-me com a tristeza Verso inicial, desgarrado, solitário, antecipando algumas estrofes em que a última fecha assim: Gozo gozo ingenuamente a fingir que não sofro; choro como quem ri! Fumo o meu ópio para sonhar Mesmo à maneira de paráfrase, que é das normas evitar (o metatexto alguma vez consegue furtar-se à humilde condição de parátrase?), vejamos a fábula da narrativa poética "não tive infância/nem mocidade/ não tive a alegria! da pequena idade/ por causa deste noivado prematuro/e senil", no resto, a vida "são ilusões" e "a Felicidade e a Vida/sonhos". Então, "para esquecer" fuma ópio; ópio "para sonhar". A traços muitos ligeiros se dirá que este é um poema de clara expressão alienante. Casaram-no com a Tristeza (simbolicamente entendida aqui como o colonialismo) e o sujeito apenas conheceu o sofrimento; embora se entenda haver na vida espiritual, no seu espaço afectivo os seus "amores", os seus "ideais", parece, no entanto, falecer-lhe o ânimo para suportar esse sofrimento, para ultrapassar esse estado de alienação, e realiza a fuga através do ópio (fuma-o para sonhar). Este poema datado de 1947 e publicado no Meridiano (boletim da secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império) tem a folha 6 do Arquivo. Ópio simboliza ainda o poema seguinte, "Anestesia" ("meus dias escuros/carregados de tristeza"), mas entretanto segue-se-lhe outro, "Explicação", de sentido eufórico, que desenvolve o tema da solidariedade, da comunhão, mas também a implícita interrogação, uma ansiosa esperança, a viagem inacabada em trânsito para a plenitude do ser. Todo o meu ser Vive o querer dos homens sem norte à procura de Certeza Em 1947 no poema "Sinto a minha voz..." desenvolvem-se várias isotopias, a mais evidente, porém, a do coração enquanto símbolo de encontro e partida de todas as dores e de todos os mais puros sentimentos. E, mais uma vez, nos ocorre o celebre poema de Tenreiro, "Coração em África" , já por nós comentado no texto apresentado no Colóquio sobre Francisco José Tenreiro, realizado em São Tomé e Príncipe. O "coração" na semântica simbólica de Agostinho Neto, como em Tenreiro, aliás, ocupa uma rede larga de significações. O coração, sede e despoletador de anseios e dádivas generosas, e também o propulsor do amor, o vivificador da cadeia dionisíaca, da "harmonia universal", que tão profundamente enche a poética de certos poetas africanos, entre eles, e de modo dadivoso, Agostinho Neto, poeta que desconhece o ódio, a demolição destruidora, e se dá, intensamente, à fraternidade e a compreensão mundial. Nesta linha da evolução do pensamento de Agostinho Neto e, consequentemente, da sua visão do mundo é no poema "Novo mundo", datado de 1950, que se baliza o momento em que ultrapassando algumas hesitações e indefinições conceptuais, destruindo os fantasmas negativos, o poeta se assume como herói e portador da nova mensagem: Somos o ritmo construtivo do novo na alta noite dos caminhos sem nome Um enunciado não exaltado, antes alquimizado pela visão serena, uma espécie de convicção revelada ou de certeza ascética. "O meu grito na tua voz/o meu desejo nos teus olhos" O tema desta aprendizagem, desta viagem plural, mas essencialmente humanística e ideológica, que se inscreve nos poemas, sempre de modo a evitar a demagogia, o panfleto, furtando-se a certas tentações literárias próprias de uma época renovadora, está de facto "com os olhos secos" em que se perfigura um regresso a África, "com a palavra escrita nos olhos secos - LIBERDADE", isto é com a bandeira da apoteose. Sendo o discurso da amargura trazida por esse constrativo casamento com a Tristeza; do desconforto por lhe ter cabido nascer numa pátria violentada; sendo o discurso de um tempo desorganizado não é um texto do desespero, ou do ódio, ou da vingança. É o texto da fidelidade às origens; o espaço da irrecusável impossibilidade de aceitar o caos; o texto, enfim, da "sagrada esperança". Texto do amor, do amor total, e nesse total amor está o amor pátrio, a mátria (Mãe-África), o amor fraternal, o amor universal envolvendo os cidadãos do mundo, independentemente de credos e raças. Amor ainda - e aqui é o poeta na esfera da autobiografia- por aquela a quem se uniu, um dia, na capital do Império, nos duríssimos tempos do fascismo; união prolongada e sublinhada até à sua morte, que foi e ficou como símbolo da expressão anti-racista, exemplo sublimado de como o amor destrói barreiras e de como ele se faz, também, revolução: "O nosso amor era tão sublimemente grande que nos enchia o peito de esperança e de certeza em dias melhores" (Maria Eugénia Neto em "Cantar o homem verdadeiro" - lavra & oficina, n.º 46-51. Luanda, julho-dezembro, 1982, p. 5). O amor a um tempo sujeito e objecto em que o amador nos seus anseios e sonhos maiores se realiza e projecta, se funde na voz e nos olhos da amada: Nas curtas horas realmente longas a jornada insana das lutas vitoriosas o grito no caminho firme para a vida o meu grito na tua voz. o meu desejo nos teus olhos O amor como fonte renovadora das forças interiores, luz e embalo de vida jubilosa mesmo quando a distância e a ausência (aliás duas presenças da simbólica de A. Neto), realizam a prolongada e magoada separação: A tua ausência Amor A tua ausência caindo em mim suave e dolorosa distinta e múltipla como lá fora os bagos da chuva sobre o enlameado do chão Voltando a página e retomando o fio, vamos ao fecho da obra e damos com o poema "A renúncia impossível/negação", de onde saiu o título do livro, e que é uma profissão de fé. A fidelidade a alguma coisa de que não se poderá separar. Alguma coisa essa que se tomou na sua razão de viver: devolver à terra, à pátria a condição sagrada dos tempos imemoriais, ir ao encontro do reinício do mundo a buscar e desfrutar a pureza da liberdade. No suposto auto-suicídio em "A renúncia impossível/ negação" o sujeito de enunciação, que é também sujeito do enunciado, e sagrando-se como a própria raça negra ao reclamar a sua civilização, não constrói mais do que uma ironia, laboriosamente trabalhada, no propósito de desdenhar o racismo branco mundial para quem a raça negra é o incómodo monturo. Curiosamente, como de resto se encontra disseminado por outros poemas - mas neste colocada a proposição com maior transparência - situa-se a imagem de Cristo - "Sou o verdadeiro Cristo da Humanidade" - aquele que, no poema, se quer nado neste mundo para sofrer, e redimir a Humanidade dos seus pesadelos. Ironizando, parodiando, negociando, interpelando, invectivando um interlocutor suposto que é,já se disse, o branco-colono, o enunciador vai escrevendo o contrário daquilo que quer dizer. Auto-destruindo-se, o sujeito personaliza colectivamente a raça negra - pratica imaginariamente o masoquismo sacrificial, mas no interior do texto, no palimpsesto está o riso de homem negro porque se entende que a solução não reside no desaparecimento do negro para tranquilidade da consciência do branco, mas sim na viagem dolorosa do negro, bem dentro do universo do Outro, que o leve à Redenção, que o transporte à Celebração. Linda-a- Velha, 19.10.1984 Manuel Ferreira  Òpio Casaram-me com tristeza! A minha terra negra e de sol - a minha Mãe - que entoa magoados melodias em noites de festa quando a lua ri e a enigmática floresta farfalha ritmos de jazz, - a minha Mãe - deu-me Tristeza em casamento quando nasci. Não tive infância nem mocidade não tive a alegria da primeira idade por causa deste noivado prematuro e senil. Meus pesados dias são ilusões meus prazeres amarguras a Felicidade e a Vida sonhos. Eu próprio sou uma ilusão Sou a irrealidade sou sonho. Porque a realidade é a Tristeza e não a quero assim. Para a esquecer e olvidar meu amores os meus idéias fumo ópio. Para a esquecer e olvidar meus amores os meus ideias fumo ópio. - Eu sensualizo a Vida: bebo o brilho da luz quando trabalho ao sol queimando os ombros nus gozo o sadismo do fogo quando danço à fogueira e a lenha contorce sofrendo como o meu sofrimento amarfanha a alma. Gozo gozo ingenuamente a fingir que não sofro; choro como quem ri! Fumo o meu ópio para sonhar Coimbra 1947 Recorte policopiado de "Meridiano" - 24.1.948 - Arquivo fls.6 Sinto na minha voz... Sinto na minha voz as vozes duma multidão No coração sinto um mundo No meu braço um exército A multidão calou O mundo perdi-o O exército foi vencido Mas a multidão silente não morreu O exército vencido não desapareceu E no coração tenho a certeza De que o amanhã não será só Ilusão. 1949 Original dactilografado. Arquivo fls. 45 Antigamente era Antigamente era o eu-proscrito Antigamente era a pele escura-noite do mundo Antigamente era o canto rindo lamentos Antigamente era o espírito simples e bom Outrora tudo era tristeza Antigamente era tudo sonho de criança. A pele o espírito o canto o choro eram como a papaia refrescante para aquele viajante cujo nome vem nos livros para meninos Mas dei um passo ergui os olhos e soltei um grito que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo Harlem Pekim Barcelona Paris Nas florestas escondidas do Novo Mundo E a pele o espírito o canto o choro brilham como gumes prateados Crescem. belos e irresistíveis como o mais belo sol do mais belo dia da Vida. 10 de Setembro de 1951 Original manuscrito. Arquivo fls. 44. A tua mão poeta A tua mão poeta atravessou os oceanos até mim A tua mão poeta encontrou-me sentado na ilha-África levantada no coração de Lisboa A tua mão poeta partiu de mim para mim pela * tua voz pela tua voz ritmada ** das enxadas nos terrenos adubados pelo sangue da sujeição pela tua voz milhões de vozes fratemidade amor situadas para lá das algemas para lá das grades sempre livres sempre fortes sempre grito sempre riso A tua mão poeta um poeta de amor escrito com os cinco dedos de África sobre a ânsia humana de amizade e paz A tua mão poeta sonorizando o batuque liberdade entre as cubatas escravas da vida Tenho-a na minha mão e através dela oferto-me à nossa África. *a ** retomada Dois originais dactilografados. Arquivo fls. 160 e seguintes s/ número. A Renúncia Impossível Não creio em mim Não existo Não quero eu não quero ser Quero destruir-me atirar de pontes elevadas e deixar-me despedaçar sobre as pedras duras das calçadas Pulverizar o meu ser desaparecer não deixar sequer traço de passagem pelo mundo Quero que o não-eu se aposse de mim Mais do que um simples suicídio quero que esta minha morte seja uma verdadeira novidade histórica um desaparecimento total até mesmo nos cérebros daqueles que me odeiam até mesmo no tempo e se processe a História e o mundo continue como se eu nunca tivesse existido como se nenhuma obra tivesse produzido como se nada tivesse influenciado na vida como se em vez de valor negativo eu fosse zero Quero ascender elevar-me até atingir o Zero e desaparecer Deixai-me desaparecer! Mas antes vou gritar com toda a força dos meus pulmões para que o mundo oiça: Fui eu quem renunciou a Vida! Podeis continuar a ocupar o meu lugar vós os que mo roubastes Aí tendes o mundo todo para vós para mim nada quero nem riqueza nem pobreza nem alegria nem tristeza nem vida nem morte nada Não sou Nunca fui Renuncio-me Atingi o Zero E agora vivei cantai chorai casai-vos matai-vos embriagai-vos dai esmolas aos pobres Nada me pode interessar que eu não sou Atingi o Zero Não contem comigo para vos servir às refeições nem para cavar os diamantes que vossas mulheres irão ostentar em salões nem para cuidar das vossas plantações de algodão e café não contem com amas para amamentar os vossos filhos sifilíticos não contem com operários de segunda categoria para fazer o trabalho de que vos orgulhais nem com soldados inconscientes para gritar com o estômago vazio vivas ao nosso trabalho de civilização nem com lacaios para vos tirarem os sapatos de madrugada quando regressardes de orgias nocturnas nem com pretos medrosos para vos oferecer vacas e vender milho a tostão nem com corpos de mulheres para vos alimentar de prazeres nos ócios da vossa abundância imoral Não contem comigo Renuncio-me Eu atingi o Zero E agora podeis queimar os letreiros medrosos que às portas dos bares hotéis e recintos públicos gritam o vosso egoísmo nas frases "SÓ PARA BRANCOS" ou COLOURED MEN ONLY" Negros aqui Brancos acolá E agora podeis acabar com os miseráveis bairros de negros que vos atrapalham a vaidade Vivei satisfeitos sem colour lines sem terdes que dizer aos fregueses negros que os hotéis estão abarrotados que não há mais mesas nos restaurantes Banhai-vos descansados nas vossas pratas e piscinas que nunca houve negros no mundo que sujassem as águas ou os vossos nojentos preconceitos com a sua escura presença Dissolvei a Ku-Klux-Klan que já não há negros para linchar! Porque hesitais agora! Ao menos tendes oportunidade para proclamardes democracias com sinceridade Podeis inventar uma nova história inclusivamente podeis inventar uma nova mística direis por exemplo: No princípio NÓS criamos o mundo Tudo foi feito por NÓS E isso nada me interessa Ah! que satisfação eu sinto por ver-vos alegres no vosso orgulho e loucos na vossa mania de superioridade Nunca houve negros! A África foi construída só por vós A América foi colonizada só por vós A Europa não conhece civilizações africanas Nunca houve beijos de negros sobre faces brancas nem um negro foi linchado nunca matastes pretos a golpes de cavalo marinho para lhes possuirdes as mulheres nunca extorquistes propriedades a pretos não tendes nunca tivestes filhos com sangue negro ó racistas de desbragada lubricidade Fartai-vos agora dentro da moral! Que satisfação eu sinto por não terdes que falsear os padrões morais para salvaguardar o prestígio a superioridade e o estômago dos vossos filhos Ah! o meu suicídio é uma novidade histórica é um sádico prazer de ver-vos bem instalados no vosso mundo sem necessidade de jogos falsos Eu elevado até o Zero eu transformado no Nada-histórico eu no início dos Tempos eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo sou o verdadeiro Cristo da Humanidade! Não há nas ruas de Luanda negros descalços e sujos a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização Em Lourenço Marques em New York em Leopoldville em Cape Town gritam pelas ruas fogueteando alegria nos ares -Não há negros nas ruas! Nunca houve Não há negros preguiçosos a deixar os campos por cultivar e renitentes á escravização já não há negros para roubar Toda a riqueza representa agora o suor do rosto e o suor do rosto é a poesia da vida Viva a poesia da vida! Viva! Não existe música negra Nunca houve batuques nas florestas do Congo Quem falou em espirituais? Os salões enchem-se de Debussy Struss Korsakoff que não há selvagens na terra Viva a civilização dos homens superiores sem manchas negroides a perturbar-lhe a estética! Viva! Nunca houve descobrimentos a África foi criada com o mundo o que é a colonização? O que são os massacres de negros? O que são os esbulhos de propriedade? Coisas que ninguém conhece A História está errada Nunca houve escravatura Nunca houve domínio de minorias orgulhosas da sua força Acabai com as cruzadas religiosas A fé está espalhada por todo o mundo sobre a terra só há cristãos VÓS sois todos cristãos Não há infiéis por converter Escusais de imaginar mais infidelidades religiosas para justificar repugnantes actos de barbarismo Não necessitais enviar mais missionários a África nem aos bairros de negros Nunca houve mahamba nem concepções religiosas diferentes nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar Acabai com os missionários os seus sofismas os seus milagres inventados para justificar ambições e vaidades Possuis tudo TUDO E sois todos irmãos Continuai com os vossos sistemas políticos ditaduras democracias isso é convosco Explorai o proletariado matai-vos uns aos outros lutai pela glória lutai pelo poder criai minorias fortes apadrinhai os afilhados dos vossos amigos criai mais castas aburguesai as ideias e tudo sem a complicação de verdes intrusos imiscuir-se na vossa querida e defendida civilização de homens privilegiados E agora homens irmãos dai-vos as mãos gritai-vos a vossa alegria de serdes sós SÓS! únicos habitantes da Terra Eu atingi o Zero Isto simplifica extraordinariamente a vossa ética Ao menos não percais a ocasião para serdes honestos Se houver terramotos calamidades cheias ou epidemias ou terras a defender da invasão das águas ou motores parados em lamas africanas raios vos partam já não tereis de chamar-me para acudir às vossas desgraças para reparar os vossos desastres ou para carregar com a culpa das vossas incúrias Ide para o diabo! Eu não existo Palavra de honra que nunca existi Atingi o Zero o Nada Abençoada a Hora do meu super-suicídio para vós homens que construís sistemas morais para enquadrar imoralidades o sol brilha só para vós a lua reflecte luz só para vós nunca houve esclavagistas nem massacres nem ocupações da África Como até a História se transforma num Tratado de Moral sem necessidade de arranjos apressados! Os pretos dos cais não existem Nunca foram ouvidos cantos dolentes misturados com a chiadeira do guindastes Nunca pisaram os caminhos do mato carregados com cem quilos às costas são os motores que se queimam sob as cargas Ó pretos submissos humildes ou tímidos sem lugar nas cidades ou nos escaninhos da honestidade ou nos recantos da força dançarinos com a alma poisada no sinal menos polígamos declarados dançarinos de batuques sensuais Sabei que subistes todos de valor atingistes o Zero sois Nada e salvastes o Homem Acabou-se o ódio e o trabalho de civilização e a náusea de ver meninos negros sentados na escola ao lado de meninos de olhos azuis e as extorsões e compulsões e as palmatoadas e torturas para obrigar inocentes a confessar crimes e medos de revolta e as complicadas demarches políticas para iludir as almas simples Acabaram-se as complicações sociais! Atingi o Zero Cheguei à hora do início do mundo e resolvi não existir Cheguei ao Zero-Espaço ao Nada-tempo ao Eu coincidente com vós-Tudo E o que é mais importante Salvei o mundo! 1949 Original dactilografado. arquivo fls. 204 a 209/210 a 215. Ficha Técnica: Titulo: A Renúncia impossível Autor: Agostinho Neto Edição Especial do Governo Provincial de Luanda e Delegação Provincial da Cultura (17 de Setembro de 1998) Composição: Osmar Benga Capa: Pedro Santos Execução Gráfica,Impressão e Acabamento: EAL - Edições de Angola Lda. Tiragem: 1000 exemplares @ Herdeiros de Agostinho Neto Um dos mais belos poemas de Agostinho Neto serviu de inspiração à criação do Movimento Nacional Espontâneo e de seus inúmeros projetos. Adeus à hora da largada Minha Mãe (todas as mães negras cujos filhos partiram) tu me ensinaste a esperar como esperaste nas horas difíceis Mas a vida matou em mim essa mística esperança Eu já não espero sou aquele por quem se espera Sou eu minha Mãe a esperança somos nós os teus filhos partidos para uma fé que alimenta a vida Hoje somos as crianças nuas das sanzalas do mato os garotos sem escola a jogar a bola de trapos nos areais ao meio-dia somos nós mesmos os contratados a queimar vidas nos cafezais os homens negros ignorantes que devem respeitar o homem branco e temer o rico somos os teus filhos dos bairros de pretos além aonde não chega a luz elétrica os homens bêbedos a cair abandonados ao ritmo dum batuque de morte teus filhos com fome com sede com vergonha de te chamarmos Mãe com medo de atravessar as ruas com medo dos homens nós mesmos Amanhã entoaremos hinos à liberdade quando comemorarmos a data da abolição desta escravatura Nós vamos em busca de luz os teus filhos Mãe (todas as mães negras cujos filhos partiram) Vão em busca de vida. (Sagrada esperança) NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA LITERATURA ANGOLANA A passagem com a qual iniciamos nosso trabalho resume com enorme rigor, uma impressão comum a todos os estudiosos da literatura angolana, sua característica eminentemente histórico-social; ao mesmo tempo que explica prolongadas ausências de qualquer registro literário digno desse nome. Os autores angolanos estiveram sempre em primeira linha de combate pela libertação e pela dignificação do homem angolano e, o que não é raro, subordinando na produção literária a luta socio-política. Os primeiros registros de produção escrita de um autor natural de Angola remontam ao século XVII. Sem querer dizer que não houvera literatura angolana antes desta época, a literatura de cunho marcadamente tradicional que conhecemos tinha, não obstante, uma característica determinante: a de ser oral. Por que só a partir dos primeiros escritos conhecidos pudemos ter algum conhecimento concreto sobre o assunto. Um dos primeiros escritos da literatura oral, segundo Carlos Ervedos, em seu "Roteiro da Literatura Angolana", por Saturnino de Sousa e Oliveira e, Manuel Alves de Castro Francina, um brasileiro e um angolano que, em seu livro, editado em 1864, Elementos Gramaticais da Língua Nbumdu, nos oferecem vinte provérbios em kimbundu(língua originária da região de Luanda e do centro e norte de Angola). Em 1885, desembarca em Luanda o suíço Héli Chateilan, missionário dotado de uma vastíssima e sólida cultura que ensinaria bastante sobre a importância do conhecimento público da literatura tradicional angolana. Depois de Héli Chateilan, outro nome se converteu em referência obrigatória no estudos da literatura tradicional: Oscar Ribas. o epítome de seus trabalhos de investigação se encontra reunido em Missosso, conjunto de três volumes. O primeiro nos apresenta vinte e seis contos e quinhentos provérbios; no segundo, a psicologia dos nomes, culinária e bebidas, passatempos infantis, vozes de animais e epistolário; o terceiro e último nos oferece adivinhações, canções, súplicas, cantos pela morte e instantâneas da vida dos negros. Pertence também a primeira metade do século XIX a publicação do primeiro livro de poemas de um escritor angolano, Espontaneidades da Minha Alma - As Senhoras Africanas, Por José da Silva Maia Ferreira, natural de Benguela. "o livro(..) marcou uma época", disse Gerald Moser na introdução da segunda edição de Espontaneidades da Minha Alma, pela União dos Escritores Angolanos: "Constituiu não somente a primeira obra da incipiente literatura angolana, posto que apareceu no momento preciso em que se debilitaram os antigos vínculos entre Angola e o Brasil". Com a abolição do tráfico de escravos em 1836 e a substituição gradual por uma colonização baseada na agricultura e no comércio, a partir dessa época, começou a produzir-se na sociedade de Luanda e Benguela, portos de saída de escravos para a América do Sul, favorecendo uma maior estabilidade econômica e social, o que deu origem a uma primeira burguesia africana. Entenda-se aqui burguesia africana na acepção de Mário António Fernandes de Oliveira, um eminentíssimo historiador da literatura angolana, em sua obra, A Sociedade Angolana do Fim do Século XIX e um Seu Escritor: "A população negra e mestiça cujo contato com o europeu se converteu em um elemento culturalmente distinto". A população européia que ao largo do século XIX viveu nas primeiras cidades de Angola estava essencialmente constituída, segundo nos diz Júlio de Castro Lopo, "por africanistas de permanência incerta no território, aventureiros, colonos forçosamente ligados à vida colonial por necessidades econômicas e contrariedades diversas, missionários e clérigos, militares e deportados". Luanda e Benguela, como portas de saída dos escravos para a América do Sul, eram as cidades que tinham o maior número de habitantes. Comparadas com as cidades de hoje, não passavam de minúsculas vilas, apesar de contarem àquela época, com alguns séculos de existência . Em 1851, Luanda tinha uma população de 12.565 habitantes, dos quais 9270 eram negros, 6020 escravos, 2055 mestiços e somente 1240 brancos. Entre estes últimos, o número de mulheres era insignificante. Desta forma, numericamente inferior, disseminado pelos distintos bairros da zona urbana, o homem português, dado o reduzido número de mulheres brancas e graças as suas legendárias capacidades de adaptação e de convivência com outros povos, absorveu o legado tradicional africano, cruzando-se com mulheres angolanas, determinando uma sociedade, todavia única no contexto africano, em que os mestiços gozavam de alguma relevância. É este o marco de onde se assiste a aparição de uma elite angolana. Elite económica primeiro, elite cultural depois. Estas pessoas desenvolviam suas atividades profissionais no comércio, na função pública e nos tribunais; e encontravam no periodismo nascente o primeiro grande veículo para a expressão de suas principais aspirações. Rapidamente, a imprensa se transformaria num lugar de privilégio para o debate sócio-político. Ao longo de quase toda a metade do século XIX, se assistiu ao nascimento de diversas publicações. O Boletim Oficial, fundado em 1845, foi o ponto de partida. Seguidor das funções oficiais para as quais foi criado, desempenhava também as funções de um periódico que, apoiado por uma pequena elite de europeus recém ligados a Colônia, contribuía consideravelmente para o incremento do periodismo em Angola. Assim se sucederam várias publicações entre os anos 1845 e 1880. Ali se foi esboçando uma primeira linha de homens que, sendo europeus, viviam cotidianamente os problemas da colônia, fazendo da imprensa uma ampla tribuna para a defesa de seus interesses. O procedimento tornou-se tradição e, mais tarde, o periodismo se converteria na principal arma de luta dos intelectuais africanos. Entre os europeus que se destacaram nesta fase do periodismo angolano, figura o nome de Alfredo Trony, bacharel em direito pela Universidade de Coimbra e que residiu durante muitos anos em Luanda, onde faleceu em 1904. Fundou e dirigiu os periódicos "Jornal de Luanda", em 1878, o Mukuarimi, em 1888, e supõe-se, o "Conselhos do Leste", em 1891. A exemplo do que ocorria com a grande maioria dos intelectuais dos finais d
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